
Caro leitor, a estória que estou prestes a contar passou-se comigo. Descreve alguns dos passos que me conduziram à Fé em Deus e à comunhão com Cristo. Dada a natureza pessoal deste percurso, não pretendo afirmar que é a forma mais ou menos correcta de descobrir Deus. No meu caso foi assim…
Apesar da minha família ser católica, nunca me impuseram nenhum tipo de fé nem de prática religiosa. Posso mesmo dizer que, como católicos foram negligentes. Fui baptizado já com 4 anos e nunca frequentei a catequese. Ainda em criança ia à Missa de vez em quando, especialmente em datas especiais. Eu detestava ter que ir à missa, especialmente pelo ambiente que encontrava nas igrejas. A arte sacra enchia-me de enfado (e ainda hoje não gosto), o cheiro vindo das velas espalhadas por tudo o que era canto e, o pior, aquela ladainha, sempre no mesmo tom de voz, que compunha as orações do ritual. Que momentos de tédio passei naqueles templos! Sempre que morria alguém ou havia qualquer pretexto lá ia eu para o sagrado degredo, pela mão de um familiar e tinha que suportar aquele acontecimento sempre encabeçado por um padre careca e com umas vestes nada divertidas.
Felizmente, para a minha sensibilidade de criança, as idas à igreja foram-se espaçando. O tempo que sobrou foi aproveitado por mim para reflectir. Sabia rezar o Pai Nosso e a Ave Maria. Mais nada. E tinha um Novo Testamento, que ainda hoje guardo religiosamente.
O tema principal da fé, que é a existência de Deus, foi “arquivado” na gaveta das dúvidas. Não sabia se sim ou se não, e tinha mais perguntas do que respostas. Mantive-me agnóstico até à idade adulta.
O que permanecia nas minhas mãos era um livro de histórias. E eram todas sobre a mesma personagem: um homem chamado Jesus, que tinha sido morto aos 33 anos, e que protagonizava episódios fabulosos. O que mais me fascinava é que aquele filho de um carpinteiro era diferente, muito diferente, de todas as personagens que povoavam a minha imaginação de infância.
De cada vez que lia o Novo Testamento encontrava coisas novas. Percorri a adolescência mantendo-me “fã” do Nazareno. Mas continuava sem certezas acerca da existência de Deus. E ainda, para complicar os meus raciocínios, não conseguia definir aquele Ser imaterial, ainda que existisse.
Deus não era a principal questão. Continuava com a atenção totalmente concentrada no homem que, através da sua vida, oferecia conhecimento a quem o quisesse ouvir. O meu interesse pelo despojamento de Jesus, pelo seu projecto de Humanidade, pela ambição suprema de elevar espiritualmente todos os homens, deslumbrava-me.
Entretanto fui descobrindo outros livros que ofereciam alegorias, isto é: histórias que contêm sentidos para além da interpretação literal. Encontrei-me com Homero e o seu discurso épico, repleto de lições sobre a condição humana, tão actual como no século VIII A.C. Ainda hoje considero a Odisseia uma das obras mais ricas sobre a natureza humana, os seus defeitos e virtudes, contradições e desejos.
Tracei um paralelismo entre o Novo Testamento e a Odisseia. Tinha ali, diante de mim, duas grandes alegorias, cada uma delas recheada de alegoria mais pequenas, de “casos”.
O texto do poeta grego era excelente, mas o Novo Testamento era perfeito. Se Jesus fosse um herói, a sua “odisseia” exprimia uma acuidade sobre-humana. Descrevia a nossa espécie com uma precisão absoluta. O homem era aquilo – e mais nada!
Reconhecer o Novo Testamento como texto perfeito foi o meu primeiro passo em direcção à Fé. Se não foi concebido por uma inteligência humana, constitui, no meu entender, um prova material da existência de uma inteligência sobre-humana.
Qual seria a intenção de quem delineou a vida de Jesus? Repare, caro leitor, que estou a formular esta pergunta sem afirmar peremptoriamente que o Nazareno terá realmente existido numa forma corpórea, social e partilhado com os outros homens os acidentes do mundo. A questão mantém-se quer o Cristo seja uma personagem ficcional quer tenha tido uma presença mundana.
O Novo Testamento é uma carta à Humanidade, enviada pela tal inteligência sobre-humana de que falei. Não é um agregado de preceitos a cumprir, ao contrário de outros textos considerados sagrados, mas sim uma mensagem imbuída numa experiência terrena: a vida de Jesus. O Seu destino é a mensagem e a Verdade é o próprio Homem. Parece uma partida que alguém resolveu pregar aos milhões de leitores daquele livro. É anti-literal por natureza e esse é um dos seus principais ensinamentos. Ou o leitor pensa pela sua própria cabeça e ouve o que a consciência e o bom senso lhe dizem, ou então não a consegue ler. É uma carta em código e o descodificador é o coração humano. Quem concebeu o Novo Testamento diz-nos: ou usas o teu coração ou ficas sem perceber nada. O protagonista da história debate-se precisamente com este problema: o facto dos fariseus interpretarem literalmente os textos sagrados. E afirma que, enquanto forem tomados à letra permanecerão mortos. Mortos para o Espírito, entenda-se. Eles estavam bem vivos para veicular a autoridade mundana (sobretudo política) dos fariseus sobre a sociedade que encabeçavam. Do mesmo ponto de partida se retira uma segunda lição: a realidade do Espírito e a realidade do Mundo. Só se pode estar vivo numa única dimensão. Nunca nas duas.
A minha questão com o Belo
Desde a adolescência que eu sou afectado por uma condição estética (ou sensorial/emocional). Por vezes, quando estou perante determinadas formas novas (tridimensionais ou não) ou cores particulares (certos tipos de verde e de azul) sinto-me atraído, de uma maneira quase hipnótica. Posso ficar com os olhos “colados” à imagem que tenho diante de mim, sem pestanejar, totalmente absorvido pela forma ou pela cor. A atracção pela forma é mais frequente e dá origem a um perscrutar constante e duradouro das linhas, individualmente mas sobretudo pela maneira como constituem um todo. É uma descoberta obsessiva do novo objecto até descobrir a “composição” (harmonia), até entranhar-se em mim algo de inovador, que tem tanto de interpretativo como de sensorial. Quando eu era mais novo, este “trajecto” acabava quase sempre num enjoo, numa náusea que me davam algumas tonturas. Mais tarde, o tal “trajecto” passou a culminar numa grande sensação de prazer e preenchimento interior. Hoje em dia, a sensação de preenchimento é tão forte que, por vezes, parece que não a vou conseguir aguentar, que estou prestes a rebentar por dentro.
Quando passo dias ou semanas sem esta “dose” (ou “transe” sensorial) a minha vida transforma-se num tédio, num cinzento que me conduz ao desinteresse pela maioria das coisas.
Após esta explicação sobre as minhas experiências estéticas, cumpre-me esclarecer a ligação entre a minha percepção particular do Belo e o segundo “passo” que me conduziu à descoberta de um Ser extra-humano. Recordo ao leitor que o primeiro passo consistiu em reconhecer o Novo Testamento como obra de uma inteligência superior à humana.
Como eu expliquei, na minha vida surgem ocasionalmente momentos de grande intensidade emocional, cujo ponto de partida é a percepção de determinados objectos (por “objecto” entenda-se: faces, paisagens, muros, movimentos, etc, etc. Portanto, neste texto aplico a palavra objecto a algo que pode ser visto).
Os tais momentos estéticos, a partir de determinada altura, algures na passagem para a idade adulta, passaram a ser acompanhados de uma elevação espiritual. Confesso que tenho alguma dificuldade em explicar o fenómeno. É uma sensação avassaladora de preenchimento interior (maior do que eu próprio, uma vez que não a consigo controlar), e que, com a idade adulta, passou a ser acompanhada da percepção da Vida como essência. A Vida de que falo é algo em si mesmo, um ser próprio, capaz de entrar ou sair do interior humano. Portanto, a minha forma de acolher o Belo surge imbuída da essência da Vida. O Belo e a Vida são experienciados por mim não como entidades separadas, mas sim vividas numa experiência única. E o conjunto de percepções não acaba aqui. O Amor, sentido como sentimento em estado puro (essência), faz parte também do complexo sensorial, que, condensado, é vivido sob a forma de fenómeno total.
Ora, quem é o Pai de que Jesus fala? É um Ser que obriga os homens a recitar ladainhas, a fazer sacrifícios sem sentido e a submeter-se a uma qualquer Ordem mundana, seja ela de cariz religioso ou político? Não. O Deus do Novo Testamento é a essência do Amor e da Vida. O Nazareno não podia ser mais claro quando afirmou entrar em todas as casas onde fosse bem-vindo. A questão estava unicamente no franquear das portas. E tal como ele o cumpriu fisicamente, também o Pai o faria espiritualmente. Quem tem a percepção desobstruída, arrisca-se a ser visitado por Deus.
Quanto à Igreja Católica, continuo com o mesmo desafecto às ladainhas, à arte sacra e aos sacrifícios que não têm por objectivo o crescimento interior. Não sou amigo das promessas aos Santos, que mais parecem intercâmbios comerciais. Nem das superstições ligadas a relíquias ou outros objectos sagrados que servem de muleta psicológica às inseguranças humanas. Mas quem sou eu para julgar o mais irracional dos devotos, aquele que segue com o coração fechado as superstições que a Igreja foi acumulando ao longo de séculos? Um pedaço de palha soprado pelo vento, perdoem-me o cliché… O caminho de evolução espiritual, de aperfeiçoamento e de aproximação à tal Inteligência Superior, de que vos falei, parece-me, logo à primeira vista, um projecto árduo, que só pode ser edificado dentro de cada indivíduo (ainda que possa haver entreajuda dos crentes), que absorve todas as forças e a auto-vigilância continua. Ora, se eu aceitar esse projecto, de certeza que não terei mais energia nem concentração para tecer um juízo sobre os actos dos outros. Se eu julgar ou reparar num qualquer erro praticado por um católico, é porque de certeza, não estou a aplicar-me o suficiente no meu projecto.
A minha Fé, hoje em dia, é vivida em cada momento de arrebatamento interior, é a vivência do Belo, da Vida e do Amor, sentidos num deslumbramento estético uno. De cada vez que sou arrebatado, arrebanhado pelo Belo mais insólito e que me domina temporariamente o Eu interior, sei que Deus existe, porque o sinto de uma forma muito mais intensa do que todas as outras sensações que povoam a minha vivência quotidiana. São momentos de revelação e de comunhão com um Ser infinitamente superior a mim.
Apesar da minha família ser católica, nunca me impuseram nenhum tipo de fé nem de prática religiosa. Posso mesmo dizer que, como católicos foram negligentes. Fui baptizado já com 4 anos e nunca frequentei a catequese. Ainda em criança ia à Missa de vez em quando, especialmente em datas especiais. Eu detestava ter que ir à missa, especialmente pelo ambiente que encontrava nas igrejas. A arte sacra enchia-me de enfado (e ainda hoje não gosto), o cheiro vindo das velas espalhadas por tudo o que era canto e, o pior, aquela ladainha, sempre no mesmo tom de voz, que compunha as orações do ritual. Que momentos de tédio passei naqueles templos! Sempre que morria alguém ou havia qualquer pretexto lá ia eu para o sagrado degredo, pela mão de um familiar e tinha que suportar aquele acontecimento sempre encabeçado por um padre careca e com umas vestes nada divertidas.
Felizmente, para a minha sensibilidade de criança, as idas à igreja foram-se espaçando. O tempo que sobrou foi aproveitado por mim para reflectir. Sabia rezar o Pai Nosso e a Ave Maria. Mais nada. E tinha um Novo Testamento, que ainda hoje guardo religiosamente.
O tema principal da fé, que é a existência de Deus, foi “arquivado” na gaveta das dúvidas. Não sabia se sim ou se não, e tinha mais perguntas do que respostas. Mantive-me agnóstico até à idade adulta.
O que permanecia nas minhas mãos era um livro de histórias. E eram todas sobre a mesma personagem: um homem chamado Jesus, que tinha sido morto aos 33 anos, e que protagonizava episódios fabulosos. O que mais me fascinava é que aquele filho de um carpinteiro era diferente, muito diferente, de todas as personagens que povoavam a minha imaginação de infância.
De cada vez que lia o Novo Testamento encontrava coisas novas. Percorri a adolescência mantendo-me “fã” do Nazareno. Mas continuava sem certezas acerca da existência de Deus. E ainda, para complicar os meus raciocínios, não conseguia definir aquele Ser imaterial, ainda que existisse.
Deus não era a principal questão. Continuava com a atenção totalmente concentrada no homem que, através da sua vida, oferecia conhecimento a quem o quisesse ouvir. O meu interesse pelo despojamento de Jesus, pelo seu projecto de Humanidade, pela ambição suprema de elevar espiritualmente todos os homens, deslumbrava-me.
Entretanto fui descobrindo outros livros que ofereciam alegorias, isto é: histórias que contêm sentidos para além da interpretação literal. Encontrei-me com Homero e o seu discurso épico, repleto de lições sobre a condição humana, tão actual como no século VIII A.C. Ainda hoje considero a Odisseia uma das obras mais ricas sobre a natureza humana, os seus defeitos e virtudes, contradições e desejos.
Tracei um paralelismo entre o Novo Testamento e a Odisseia. Tinha ali, diante de mim, duas grandes alegorias, cada uma delas recheada de alegoria mais pequenas, de “casos”.
O texto do poeta grego era excelente, mas o Novo Testamento era perfeito. Se Jesus fosse um herói, a sua “odisseia” exprimia uma acuidade sobre-humana. Descrevia a nossa espécie com uma precisão absoluta. O homem era aquilo – e mais nada!
Reconhecer o Novo Testamento como texto perfeito foi o meu primeiro passo em direcção à Fé. Se não foi concebido por uma inteligência humana, constitui, no meu entender, um prova material da existência de uma inteligência sobre-humana.
Qual seria a intenção de quem delineou a vida de Jesus? Repare, caro leitor, que estou a formular esta pergunta sem afirmar peremptoriamente que o Nazareno terá realmente existido numa forma corpórea, social e partilhado com os outros homens os acidentes do mundo. A questão mantém-se quer o Cristo seja uma personagem ficcional quer tenha tido uma presença mundana.
O Novo Testamento é uma carta à Humanidade, enviada pela tal inteligência sobre-humana de que falei. Não é um agregado de preceitos a cumprir, ao contrário de outros textos considerados sagrados, mas sim uma mensagem imbuída numa experiência terrena: a vida de Jesus. O Seu destino é a mensagem e a Verdade é o próprio Homem. Parece uma partida que alguém resolveu pregar aos milhões de leitores daquele livro. É anti-literal por natureza e esse é um dos seus principais ensinamentos. Ou o leitor pensa pela sua própria cabeça e ouve o que a consciência e o bom senso lhe dizem, ou então não a consegue ler. É uma carta em código e o descodificador é o coração humano. Quem concebeu o Novo Testamento diz-nos: ou usas o teu coração ou ficas sem perceber nada. O protagonista da história debate-se precisamente com este problema: o facto dos fariseus interpretarem literalmente os textos sagrados. E afirma que, enquanto forem tomados à letra permanecerão mortos. Mortos para o Espírito, entenda-se. Eles estavam bem vivos para veicular a autoridade mundana (sobretudo política) dos fariseus sobre a sociedade que encabeçavam. Do mesmo ponto de partida se retira uma segunda lição: a realidade do Espírito e a realidade do Mundo. Só se pode estar vivo numa única dimensão. Nunca nas duas.
A minha questão com o Belo
Desde a adolescência que eu sou afectado por uma condição estética (ou sensorial/emocional). Por vezes, quando estou perante determinadas formas novas (tridimensionais ou não) ou cores particulares (certos tipos de verde e de azul) sinto-me atraído, de uma maneira quase hipnótica. Posso ficar com os olhos “colados” à imagem que tenho diante de mim, sem pestanejar, totalmente absorvido pela forma ou pela cor. A atracção pela forma é mais frequente e dá origem a um perscrutar constante e duradouro das linhas, individualmente mas sobretudo pela maneira como constituem um todo. É uma descoberta obsessiva do novo objecto até descobrir a “composição” (harmonia), até entranhar-se em mim algo de inovador, que tem tanto de interpretativo como de sensorial. Quando eu era mais novo, este “trajecto” acabava quase sempre num enjoo, numa náusea que me davam algumas tonturas. Mais tarde, o tal “trajecto” passou a culminar numa grande sensação de prazer e preenchimento interior. Hoje em dia, a sensação de preenchimento é tão forte que, por vezes, parece que não a vou conseguir aguentar, que estou prestes a rebentar por dentro.
Quando passo dias ou semanas sem esta “dose” (ou “transe” sensorial) a minha vida transforma-se num tédio, num cinzento que me conduz ao desinteresse pela maioria das coisas.
Após esta explicação sobre as minhas experiências estéticas, cumpre-me esclarecer a ligação entre a minha percepção particular do Belo e o segundo “passo” que me conduziu à descoberta de um Ser extra-humano. Recordo ao leitor que o primeiro passo consistiu em reconhecer o Novo Testamento como obra de uma inteligência superior à humana.
Como eu expliquei, na minha vida surgem ocasionalmente momentos de grande intensidade emocional, cujo ponto de partida é a percepção de determinados objectos (por “objecto” entenda-se: faces, paisagens, muros, movimentos, etc, etc. Portanto, neste texto aplico a palavra objecto a algo que pode ser visto).
Os tais momentos estéticos, a partir de determinada altura, algures na passagem para a idade adulta, passaram a ser acompanhados de uma elevação espiritual. Confesso que tenho alguma dificuldade em explicar o fenómeno. É uma sensação avassaladora de preenchimento interior (maior do que eu próprio, uma vez que não a consigo controlar), e que, com a idade adulta, passou a ser acompanhada da percepção da Vida como essência. A Vida de que falo é algo em si mesmo, um ser próprio, capaz de entrar ou sair do interior humano. Portanto, a minha forma de acolher o Belo surge imbuída da essência da Vida. O Belo e a Vida são experienciados por mim não como entidades separadas, mas sim vividas numa experiência única. E o conjunto de percepções não acaba aqui. O Amor, sentido como sentimento em estado puro (essência), faz parte também do complexo sensorial, que, condensado, é vivido sob a forma de fenómeno total.
Ora, quem é o Pai de que Jesus fala? É um Ser que obriga os homens a recitar ladainhas, a fazer sacrifícios sem sentido e a submeter-se a uma qualquer Ordem mundana, seja ela de cariz religioso ou político? Não. O Deus do Novo Testamento é a essência do Amor e da Vida. O Nazareno não podia ser mais claro quando afirmou entrar em todas as casas onde fosse bem-vindo. A questão estava unicamente no franquear das portas. E tal como ele o cumpriu fisicamente, também o Pai o faria espiritualmente. Quem tem a percepção desobstruída, arrisca-se a ser visitado por Deus.
Quanto à Igreja Católica, continuo com o mesmo desafecto às ladainhas, à arte sacra e aos sacrifícios que não têm por objectivo o crescimento interior. Não sou amigo das promessas aos Santos, que mais parecem intercâmbios comerciais. Nem das superstições ligadas a relíquias ou outros objectos sagrados que servem de muleta psicológica às inseguranças humanas. Mas quem sou eu para julgar o mais irracional dos devotos, aquele que segue com o coração fechado as superstições que a Igreja foi acumulando ao longo de séculos? Um pedaço de palha soprado pelo vento, perdoem-me o cliché… O caminho de evolução espiritual, de aperfeiçoamento e de aproximação à tal Inteligência Superior, de que vos falei, parece-me, logo à primeira vista, um projecto árduo, que só pode ser edificado dentro de cada indivíduo (ainda que possa haver entreajuda dos crentes), que absorve todas as forças e a auto-vigilância continua. Ora, se eu aceitar esse projecto, de certeza que não terei mais energia nem concentração para tecer um juízo sobre os actos dos outros. Se eu julgar ou reparar num qualquer erro praticado por um católico, é porque de certeza, não estou a aplicar-me o suficiente no meu projecto.
A minha Fé, hoje em dia, é vivida em cada momento de arrebatamento interior, é a vivência do Belo, da Vida e do Amor, sentidos num deslumbramento estético uno. De cada vez que sou arrebatado, arrebanhado pelo Belo mais insólito e que me domina temporariamente o Eu interior, sei que Deus existe, porque o sinto de uma forma muito mais intensa do que todas as outras sensações que povoam a minha vivência quotidiana. São momentos de revelação e de comunhão com um Ser infinitamente superior a mim.

2 comentários:
Aggiornamento
Sim, talvez seja uma forma pessoal de Aggiornamento.
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