No filme AVATAR, de James Cameron, encontramos mais um exemplo da fusão entre ciência e religião, entre tantos que povoam o nosso mundo. Esta aliança, que produz efeitos tão curiosos, é uma das características que alguns autores denominam “pós-modernidade”. A questão principal, no meu entender, está na forma como conceitos de sociedades “primitivas” são apropriados pela cultura ocidental. O que acontece, na maioria das vezes, é que os ocidentais traduzem linguisticamente o conceito, mas não culturalmente. Por exemplo, a palavra “chi”, de origem chinesa, é traduzida por “energia vital”. Obviamente, nós que vivemos numa cultura predominantemente científica e tecnológica, entendemos a “energia” à nossa maneira, de acordo com a nossa cosmovisão. De certeza que, um chinês, habitante de uma qualquer aldeia remota, entenderá o “chi” de uma forma completamente distinta dos ocidentais, que adoptaram a palavra à sua maneira e a integraram em práticas religiosas do tipo Nova Era. Para entendermos o chi, seria necessário um trabalho antropológico, um exercício de procurar ver o mundo pelos olhos do tal chinês que vive na aldeia remota.
Portanto, há muitas seitas Nova Era que nasceram, indo buscar palavras a outras sociedades, mas sem fazer a sua tradução cultural. Sim, porque para entender certos conceitos não-ocidentais seria necessário que uma pessoa mudasse de prisma, de sistemas de valores, enfim, de cultura.
Um dos aspectos inerentes à apropriação de crenças nas sociedades ocidentais está na substituição de uma dada substância imaterial (alma, espírito, etc) por modelos científicos, ou seja, materialistas. No ocidente acredita-se predominantemente no que tem uma substância material, que obedeça aos vectores do espaço e do tempo, que seja mensurável e, numa palavra, FÍSICO. Daí que, a tal “energia vital” da Nova Era seja frequentemente interpretada como electricidade, luz, etc. Não passaria pela cabeça de muitos orientais que a “aura” fosse passível de ser fotografada, prática cada vez mais comuns nos eventos de ocultismo e esoterismo.
No hinduísmo, um avatar é a manifestação terrena de um deus. Na maioria das vezes, a intenção desse deus é mostrar-se aos homens e estabelecer um qualquer tipo de comunicação. Implica, nalgumas correntes, a ideia de incorporação, do Espírito num homem. Indo buscar um exemplo ao cristianismo, Cristo seria o avatar de Deus. No filme de James Cameron, um avatar é o corpo de um nativo do planeta Pandora que, graças aos avanços tecnológicos, pode ser comandado pela mente de um americano. O conceito é simples: um ser humano (um soldado, uma cientista, por ex) enfiam-se numa máquina e, através desta controlam inteiramente o sistema nervoso do corpo à distância. Com este processo, um terráqueo pode viver em Pandora com uma aparência semelhante à dos habitantes locais. Este exemplo é perfeito para demonstrar a substituição do elemento “alma” pelo de “rede neuronal”. Enquanto, no hinduísmo, o deus Shiva usava a suas propriedade imateriais para incorporar um ser corpóreo, o “pós-modernismo” usa os poderes da ciência para produzir o mesmo efeito.
Para além da remoção do Espírito das novas seitas ocidentais, há ainda um distanciamento quanto ao ideal romântico de Natureza. Durante o século XVIII até meados do século XX, predominou na Europa uma visão romântica do mundo natural, expresso em conceitos como o de “floresta virgem” ou de “instinto”. Parecia que havia uma espiritualidade imanente em tudo o que não fosse produzido pelas mãos humanas. Havia também a noção de “homem da natureza”, que seriam os nativos de sociedades tribais, seres em perfeita harmonia com a floresta circundante.
James Cameron introduz no filme a mesma ideia. Os habitantes de Pandora fazem parte de um todo, equilibrado, que constitui o mundo natural. A novidade está na interpretação que o realizador nos oferece, vinda da cultura científica actual. Todos os seres vivos do planeta Pandora estão ligados em rede, comunicam uns com os outros através de processos bioquímicos, tal como uma rede de neurónios. Para além destas interligações (complexíssimas) existem árvores sagradas que acumulam conhecimento, eterna e permanentemente, sobre todos os “inputs” que o meio lhes envia. São as árvores sagradas que guardam toda a informação e zelam pelo equilíbrio (funcionamento em harmonia) de toda a natureza do planeta Pandora. Isto quer dizer que, o mundo criado por Cameron é uma metáfora do quotidiano actual das sociedades ocidentais: a presença e disseminação das redes de computadores. As árvores sagradas desempenham exactamente o mesmo papel que os servidores nas nossas redes informáticas. Pandora é um domínio, permitam-me a linguagem informática. Dá-se o nome de domínio a uma qualquer rede de computadores gerida por um servidor.
Concluindo, o argumento do filme AVATAR é uma metáfora da nossa sociedade global, interligada por redes infinitas, sob o manto do naturalismo romântico que povoou a imaginação ocidental nos últimos dois séculos. Como não podia deixar de ser, tem também uma história de amor, na qual um soldado ocidental se apaixona por uma nativa, e pelo todo que constitui um paraíso terreal.
Portanto, há muitas seitas Nova Era que nasceram, indo buscar palavras a outras sociedades, mas sem fazer a sua tradução cultural. Sim, porque para entender certos conceitos não-ocidentais seria necessário que uma pessoa mudasse de prisma, de sistemas de valores, enfim, de cultura.
Um dos aspectos inerentes à apropriação de crenças nas sociedades ocidentais está na substituição de uma dada substância imaterial (alma, espírito, etc) por modelos científicos, ou seja, materialistas. No ocidente acredita-se predominantemente no que tem uma substância material, que obedeça aos vectores do espaço e do tempo, que seja mensurável e, numa palavra, FÍSICO. Daí que, a tal “energia vital” da Nova Era seja frequentemente interpretada como electricidade, luz, etc. Não passaria pela cabeça de muitos orientais que a “aura” fosse passível de ser fotografada, prática cada vez mais comuns nos eventos de ocultismo e esoterismo.
No hinduísmo, um avatar é a manifestação terrena de um deus. Na maioria das vezes, a intenção desse deus é mostrar-se aos homens e estabelecer um qualquer tipo de comunicação. Implica, nalgumas correntes, a ideia de incorporação, do Espírito num homem. Indo buscar um exemplo ao cristianismo, Cristo seria o avatar de Deus. No filme de James Cameron, um avatar é o corpo de um nativo do planeta Pandora que, graças aos avanços tecnológicos, pode ser comandado pela mente de um americano. O conceito é simples: um ser humano (um soldado, uma cientista, por ex) enfiam-se numa máquina e, através desta controlam inteiramente o sistema nervoso do corpo à distância. Com este processo, um terráqueo pode viver em Pandora com uma aparência semelhante à dos habitantes locais. Este exemplo é perfeito para demonstrar a substituição do elemento “alma” pelo de “rede neuronal”. Enquanto, no hinduísmo, o deus Shiva usava a suas propriedade imateriais para incorporar um ser corpóreo, o “pós-modernismo” usa os poderes da ciência para produzir o mesmo efeito.
Para além da remoção do Espírito das novas seitas ocidentais, há ainda um distanciamento quanto ao ideal romântico de Natureza. Durante o século XVIII até meados do século XX, predominou na Europa uma visão romântica do mundo natural, expresso em conceitos como o de “floresta virgem” ou de “instinto”. Parecia que havia uma espiritualidade imanente em tudo o que não fosse produzido pelas mãos humanas. Havia também a noção de “homem da natureza”, que seriam os nativos de sociedades tribais, seres em perfeita harmonia com a floresta circundante.
James Cameron introduz no filme a mesma ideia. Os habitantes de Pandora fazem parte de um todo, equilibrado, que constitui o mundo natural. A novidade está na interpretação que o realizador nos oferece, vinda da cultura científica actual. Todos os seres vivos do planeta Pandora estão ligados em rede, comunicam uns com os outros através de processos bioquímicos, tal como uma rede de neurónios. Para além destas interligações (complexíssimas) existem árvores sagradas que acumulam conhecimento, eterna e permanentemente, sobre todos os “inputs” que o meio lhes envia. São as árvores sagradas que guardam toda a informação e zelam pelo equilíbrio (funcionamento em harmonia) de toda a natureza do planeta Pandora. Isto quer dizer que, o mundo criado por Cameron é uma metáfora do quotidiano actual das sociedades ocidentais: a presença e disseminação das redes de computadores. As árvores sagradas desempenham exactamente o mesmo papel que os servidores nas nossas redes informáticas. Pandora é um domínio, permitam-me a linguagem informática. Dá-se o nome de domínio a uma qualquer rede de computadores gerida por um servidor.
Concluindo, o argumento do filme AVATAR é uma metáfora da nossa sociedade global, interligada por redes infinitas, sob o manto do naturalismo romântico que povoou a imaginação ocidental nos últimos dois séculos. Como não podia deixar de ser, tem também uma história de amor, na qual um soldado ocidental se apaixona por uma nativa, e pelo todo que constitui um paraíso terreal.

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