quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
domingo, 27 de dezembro de 2009
Alcoolismo
O problema do alcoolismo continua a ser um dos problemas mais graves, no campo das toxicodependências, pelos efeitos negativos a nível da saúde e da destruição do ambiente social que circunda o alcoólico. Portugal é um dos países onde a taxa de alcoólicos é das mais elevadas e, pelas recentes estatísticas, o problema está ainda longe de sofrer um decréscimo significativo. Há várias associações, públicas e privadas, de auxílio a quem sofre deste tipo de toxicodependência. A mais conhecida será, porventura, os Alcoólicos Anónimos.
Apesar dos tratamentos disponíveis, que vão da desintoxicação, medicação apropriada, terapia de grupo e psicoterapia, o alcoolismo é uma doença que não termina no tratamento. Um alcoólico será sempre alcoólico, na medida em que pode ter uma recaída a qualquer momento e regressar ao ciclo vicioso. O processo terapêutico passa sobretudo pela vontade do doente em querer ultrapassar o vício e viver em constante auto-vigilância.
Em 1957, o famoso realizador de filmes animados Friz Freleng dirigiu um episódio com as famosíssimas personagens Sylvester (o gato) e Tweety (o pássaro), que constitui uma sátira repleta de humor ao alcoolismo. Na pelicula, encontramos os Birds Anonymous (paródia aos Alcoólicos Anónimos) e o enredo desenvolve-se em torno de gatos que sofrem do vício em ingerir pássaros. O dilema do alcoólico e a luta para travar o vício está muito bem satirizada pelo gato Sylvester. A questão que o filme levanta é tão actual como em 1957, ano da produção desta curta-metragem.
Apesar dos tratamentos disponíveis, que vão da desintoxicação, medicação apropriada, terapia de grupo e psicoterapia, o alcoolismo é uma doença que não termina no tratamento. Um alcoólico será sempre alcoólico, na medida em que pode ter uma recaída a qualquer momento e regressar ao ciclo vicioso. O processo terapêutico passa sobretudo pela vontade do doente em querer ultrapassar o vício e viver em constante auto-vigilância.
Em 1957, o famoso realizador de filmes animados Friz Freleng dirigiu um episódio com as famosíssimas personagens Sylvester (o gato) e Tweety (o pássaro), que constitui uma sátira repleta de humor ao alcoolismo. Na pelicula, encontramos os Birds Anonymous (paródia aos Alcoólicos Anónimos) e o enredo desenvolve-se em torno de gatos que sofrem do vício em ingerir pássaros. O dilema do alcoólico e a luta para travar o vício está muito bem satirizada pelo gato Sylvester. A questão que o filme levanta é tão actual como em 1957, ano da produção desta curta-metragem.
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Da Perfeição do Texto à Exaltação do Belo

Caro leitor, a estória que estou prestes a contar passou-se comigo. Descreve alguns dos passos que me conduziram à Fé em Deus e à comunhão com Cristo. Dada a natureza pessoal deste percurso, não pretendo afirmar que é a forma mais ou menos correcta de descobrir Deus. No meu caso foi assim…
Apesar da minha família ser católica, nunca me impuseram nenhum tipo de fé nem de prática religiosa. Posso mesmo dizer que, como católicos foram negligentes. Fui baptizado já com 4 anos e nunca frequentei a catequese. Ainda em criança ia à Missa de vez em quando, especialmente em datas especiais. Eu detestava ter que ir à missa, especialmente pelo ambiente que encontrava nas igrejas. A arte sacra enchia-me de enfado (e ainda hoje não gosto), o cheiro vindo das velas espalhadas por tudo o que era canto e, o pior, aquela ladainha, sempre no mesmo tom de voz, que compunha as orações do ritual. Que momentos de tédio passei naqueles templos! Sempre que morria alguém ou havia qualquer pretexto lá ia eu para o sagrado degredo, pela mão de um familiar e tinha que suportar aquele acontecimento sempre encabeçado por um padre careca e com umas vestes nada divertidas.
Felizmente, para a minha sensibilidade de criança, as idas à igreja foram-se espaçando. O tempo que sobrou foi aproveitado por mim para reflectir. Sabia rezar o Pai Nosso e a Ave Maria. Mais nada. E tinha um Novo Testamento, que ainda hoje guardo religiosamente.
O tema principal da fé, que é a existência de Deus, foi “arquivado” na gaveta das dúvidas. Não sabia se sim ou se não, e tinha mais perguntas do que respostas. Mantive-me agnóstico até à idade adulta.
O que permanecia nas minhas mãos era um livro de histórias. E eram todas sobre a mesma personagem: um homem chamado Jesus, que tinha sido morto aos 33 anos, e que protagonizava episódios fabulosos. O que mais me fascinava é que aquele filho de um carpinteiro era diferente, muito diferente, de todas as personagens que povoavam a minha imaginação de infância.
De cada vez que lia o Novo Testamento encontrava coisas novas. Percorri a adolescência mantendo-me “fã” do Nazareno. Mas continuava sem certezas acerca da existência de Deus. E ainda, para complicar os meus raciocínios, não conseguia definir aquele Ser imaterial, ainda que existisse.
Deus não era a principal questão. Continuava com a atenção totalmente concentrada no homem que, através da sua vida, oferecia conhecimento a quem o quisesse ouvir. O meu interesse pelo despojamento de Jesus, pelo seu projecto de Humanidade, pela ambição suprema de elevar espiritualmente todos os homens, deslumbrava-me.
Entretanto fui descobrindo outros livros que ofereciam alegorias, isto é: histórias que contêm sentidos para além da interpretação literal. Encontrei-me com Homero e o seu discurso épico, repleto de lições sobre a condição humana, tão actual como no século VIII A.C. Ainda hoje considero a Odisseia uma das obras mais ricas sobre a natureza humana, os seus defeitos e virtudes, contradições e desejos.
Tracei um paralelismo entre o Novo Testamento e a Odisseia. Tinha ali, diante de mim, duas grandes alegorias, cada uma delas recheada de alegoria mais pequenas, de “casos”.
O texto do poeta grego era excelente, mas o Novo Testamento era perfeito. Se Jesus fosse um herói, a sua “odisseia” exprimia uma acuidade sobre-humana. Descrevia a nossa espécie com uma precisão absoluta. O homem era aquilo – e mais nada!
Reconhecer o Novo Testamento como texto perfeito foi o meu primeiro passo em direcção à Fé. Se não foi concebido por uma inteligência humana, constitui, no meu entender, um prova material da existência de uma inteligência sobre-humana.
Qual seria a intenção de quem delineou a vida de Jesus? Repare, caro leitor, que estou a formular esta pergunta sem afirmar peremptoriamente que o Nazareno terá realmente existido numa forma corpórea, social e partilhado com os outros homens os acidentes do mundo. A questão mantém-se quer o Cristo seja uma personagem ficcional quer tenha tido uma presença mundana.
O Novo Testamento é uma carta à Humanidade, enviada pela tal inteligência sobre-humana de que falei. Não é um agregado de preceitos a cumprir, ao contrário de outros textos considerados sagrados, mas sim uma mensagem imbuída numa experiência terrena: a vida de Jesus. O Seu destino é a mensagem e a Verdade é o próprio Homem. Parece uma partida que alguém resolveu pregar aos milhões de leitores daquele livro. É anti-literal por natureza e esse é um dos seus principais ensinamentos. Ou o leitor pensa pela sua própria cabeça e ouve o que a consciência e o bom senso lhe dizem, ou então não a consegue ler. É uma carta em código e o descodificador é o coração humano. Quem concebeu o Novo Testamento diz-nos: ou usas o teu coração ou ficas sem perceber nada. O protagonista da história debate-se precisamente com este problema: o facto dos fariseus interpretarem literalmente os textos sagrados. E afirma que, enquanto forem tomados à letra permanecerão mortos. Mortos para o Espírito, entenda-se. Eles estavam bem vivos para veicular a autoridade mundana (sobretudo política) dos fariseus sobre a sociedade que encabeçavam. Do mesmo ponto de partida se retira uma segunda lição: a realidade do Espírito e a realidade do Mundo. Só se pode estar vivo numa única dimensão. Nunca nas duas.
A minha questão com o Belo
Desde a adolescência que eu sou afectado por uma condição estética (ou sensorial/emocional). Por vezes, quando estou perante determinadas formas novas (tridimensionais ou não) ou cores particulares (certos tipos de verde e de azul) sinto-me atraído, de uma maneira quase hipnótica. Posso ficar com os olhos “colados” à imagem que tenho diante de mim, sem pestanejar, totalmente absorvido pela forma ou pela cor. A atracção pela forma é mais frequente e dá origem a um perscrutar constante e duradouro das linhas, individualmente mas sobretudo pela maneira como constituem um todo. É uma descoberta obsessiva do novo objecto até descobrir a “composição” (harmonia), até entranhar-se em mim algo de inovador, que tem tanto de interpretativo como de sensorial. Quando eu era mais novo, este “trajecto” acabava quase sempre num enjoo, numa náusea que me davam algumas tonturas. Mais tarde, o tal “trajecto” passou a culminar numa grande sensação de prazer e preenchimento interior. Hoje em dia, a sensação de preenchimento é tão forte que, por vezes, parece que não a vou conseguir aguentar, que estou prestes a rebentar por dentro.
Quando passo dias ou semanas sem esta “dose” (ou “transe” sensorial) a minha vida transforma-se num tédio, num cinzento que me conduz ao desinteresse pela maioria das coisas.
Após esta explicação sobre as minhas experiências estéticas, cumpre-me esclarecer a ligação entre a minha percepção particular do Belo e o segundo “passo” que me conduziu à descoberta de um Ser extra-humano. Recordo ao leitor que o primeiro passo consistiu em reconhecer o Novo Testamento como obra de uma inteligência superior à humana.
Como eu expliquei, na minha vida surgem ocasionalmente momentos de grande intensidade emocional, cujo ponto de partida é a percepção de determinados objectos (por “objecto” entenda-se: faces, paisagens, muros, movimentos, etc, etc. Portanto, neste texto aplico a palavra objecto a algo que pode ser visto).
Os tais momentos estéticos, a partir de determinada altura, algures na passagem para a idade adulta, passaram a ser acompanhados de uma elevação espiritual. Confesso que tenho alguma dificuldade em explicar o fenómeno. É uma sensação avassaladora de preenchimento interior (maior do que eu próprio, uma vez que não a consigo controlar), e que, com a idade adulta, passou a ser acompanhada da percepção da Vida como essência. A Vida de que falo é algo em si mesmo, um ser próprio, capaz de entrar ou sair do interior humano. Portanto, a minha forma de acolher o Belo surge imbuída da essência da Vida. O Belo e a Vida são experienciados por mim não como entidades separadas, mas sim vividas numa experiência única. E o conjunto de percepções não acaba aqui. O Amor, sentido como sentimento em estado puro (essência), faz parte também do complexo sensorial, que, condensado, é vivido sob a forma de fenómeno total.
Ora, quem é o Pai de que Jesus fala? É um Ser que obriga os homens a recitar ladainhas, a fazer sacrifícios sem sentido e a submeter-se a uma qualquer Ordem mundana, seja ela de cariz religioso ou político? Não. O Deus do Novo Testamento é a essência do Amor e da Vida. O Nazareno não podia ser mais claro quando afirmou entrar em todas as casas onde fosse bem-vindo. A questão estava unicamente no franquear das portas. E tal como ele o cumpriu fisicamente, também o Pai o faria espiritualmente. Quem tem a percepção desobstruída, arrisca-se a ser visitado por Deus.
Quanto à Igreja Católica, continuo com o mesmo desafecto às ladainhas, à arte sacra e aos sacrifícios que não têm por objectivo o crescimento interior. Não sou amigo das promessas aos Santos, que mais parecem intercâmbios comerciais. Nem das superstições ligadas a relíquias ou outros objectos sagrados que servem de muleta psicológica às inseguranças humanas. Mas quem sou eu para julgar o mais irracional dos devotos, aquele que segue com o coração fechado as superstições que a Igreja foi acumulando ao longo de séculos? Um pedaço de palha soprado pelo vento, perdoem-me o cliché… O caminho de evolução espiritual, de aperfeiçoamento e de aproximação à tal Inteligência Superior, de que vos falei, parece-me, logo à primeira vista, um projecto árduo, que só pode ser edificado dentro de cada indivíduo (ainda que possa haver entreajuda dos crentes), que absorve todas as forças e a auto-vigilância continua. Ora, se eu aceitar esse projecto, de certeza que não terei mais energia nem concentração para tecer um juízo sobre os actos dos outros. Se eu julgar ou reparar num qualquer erro praticado por um católico, é porque de certeza, não estou a aplicar-me o suficiente no meu projecto.
A minha Fé, hoje em dia, é vivida em cada momento de arrebatamento interior, é a vivência do Belo, da Vida e do Amor, sentidos num deslumbramento estético uno. De cada vez que sou arrebatado, arrebanhado pelo Belo mais insólito e que me domina temporariamente o Eu interior, sei que Deus existe, porque o sinto de uma forma muito mais intensa do que todas as outras sensações que povoam a minha vivência quotidiana. São momentos de revelação e de comunhão com um Ser infinitamente superior a mim.
Apesar da minha família ser católica, nunca me impuseram nenhum tipo de fé nem de prática religiosa. Posso mesmo dizer que, como católicos foram negligentes. Fui baptizado já com 4 anos e nunca frequentei a catequese. Ainda em criança ia à Missa de vez em quando, especialmente em datas especiais. Eu detestava ter que ir à missa, especialmente pelo ambiente que encontrava nas igrejas. A arte sacra enchia-me de enfado (e ainda hoje não gosto), o cheiro vindo das velas espalhadas por tudo o que era canto e, o pior, aquela ladainha, sempre no mesmo tom de voz, que compunha as orações do ritual. Que momentos de tédio passei naqueles templos! Sempre que morria alguém ou havia qualquer pretexto lá ia eu para o sagrado degredo, pela mão de um familiar e tinha que suportar aquele acontecimento sempre encabeçado por um padre careca e com umas vestes nada divertidas.
Felizmente, para a minha sensibilidade de criança, as idas à igreja foram-se espaçando. O tempo que sobrou foi aproveitado por mim para reflectir. Sabia rezar o Pai Nosso e a Ave Maria. Mais nada. E tinha um Novo Testamento, que ainda hoje guardo religiosamente.
O tema principal da fé, que é a existência de Deus, foi “arquivado” na gaveta das dúvidas. Não sabia se sim ou se não, e tinha mais perguntas do que respostas. Mantive-me agnóstico até à idade adulta.
O que permanecia nas minhas mãos era um livro de histórias. E eram todas sobre a mesma personagem: um homem chamado Jesus, que tinha sido morto aos 33 anos, e que protagonizava episódios fabulosos. O que mais me fascinava é que aquele filho de um carpinteiro era diferente, muito diferente, de todas as personagens que povoavam a minha imaginação de infância.
De cada vez que lia o Novo Testamento encontrava coisas novas. Percorri a adolescência mantendo-me “fã” do Nazareno. Mas continuava sem certezas acerca da existência de Deus. E ainda, para complicar os meus raciocínios, não conseguia definir aquele Ser imaterial, ainda que existisse.
Deus não era a principal questão. Continuava com a atenção totalmente concentrada no homem que, através da sua vida, oferecia conhecimento a quem o quisesse ouvir. O meu interesse pelo despojamento de Jesus, pelo seu projecto de Humanidade, pela ambição suprema de elevar espiritualmente todos os homens, deslumbrava-me.
Entretanto fui descobrindo outros livros que ofereciam alegorias, isto é: histórias que contêm sentidos para além da interpretação literal. Encontrei-me com Homero e o seu discurso épico, repleto de lições sobre a condição humana, tão actual como no século VIII A.C. Ainda hoje considero a Odisseia uma das obras mais ricas sobre a natureza humana, os seus defeitos e virtudes, contradições e desejos.
Tracei um paralelismo entre o Novo Testamento e a Odisseia. Tinha ali, diante de mim, duas grandes alegorias, cada uma delas recheada de alegoria mais pequenas, de “casos”.
O texto do poeta grego era excelente, mas o Novo Testamento era perfeito. Se Jesus fosse um herói, a sua “odisseia” exprimia uma acuidade sobre-humana. Descrevia a nossa espécie com uma precisão absoluta. O homem era aquilo – e mais nada!
Reconhecer o Novo Testamento como texto perfeito foi o meu primeiro passo em direcção à Fé. Se não foi concebido por uma inteligência humana, constitui, no meu entender, um prova material da existência de uma inteligência sobre-humana.
Qual seria a intenção de quem delineou a vida de Jesus? Repare, caro leitor, que estou a formular esta pergunta sem afirmar peremptoriamente que o Nazareno terá realmente existido numa forma corpórea, social e partilhado com os outros homens os acidentes do mundo. A questão mantém-se quer o Cristo seja uma personagem ficcional quer tenha tido uma presença mundana.
O Novo Testamento é uma carta à Humanidade, enviada pela tal inteligência sobre-humana de que falei. Não é um agregado de preceitos a cumprir, ao contrário de outros textos considerados sagrados, mas sim uma mensagem imbuída numa experiência terrena: a vida de Jesus. O Seu destino é a mensagem e a Verdade é o próprio Homem. Parece uma partida que alguém resolveu pregar aos milhões de leitores daquele livro. É anti-literal por natureza e esse é um dos seus principais ensinamentos. Ou o leitor pensa pela sua própria cabeça e ouve o que a consciência e o bom senso lhe dizem, ou então não a consegue ler. É uma carta em código e o descodificador é o coração humano. Quem concebeu o Novo Testamento diz-nos: ou usas o teu coração ou ficas sem perceber nada. O protagonista da história debate-se precisamente com este problema: o facto dos fariseus interpretarem literalmente os textos sagrados. E afirma que, enquanto forem tomados à letra permanecerão mortos. Mortos para o Espírito, entenda-se. Eles estavam bem vivos para veicular a autoridade mundana (sobretudo política) dos fariseus sobre a sociedade que encabeçavam. Do mesmo ponto de partida se retira uma segunda lição: a realidade do Espírito e a realidade do Mundo. Só se pode estar vivo numa única dimensão. Nunca nas duas.
A minha questão com o Belo
Desde a adolescência que eu sou afectado por uma condição estética (ou sensorial/emocional). Por vezes, quando estou perante determinadas formas novas (tridimensionais ou não) ou cores particulares (certos tipos de verde e de azul) sinto-me atraído, de uma maneira quase hipnótica. Posso ficar com os olhos “colados” à imagem que tenho diante de mim, sem pestanejar, totalmente absorvido pela forma ou pela cor. A atracção pela forma é mais frequente e dá origem a um perscrutar constante e duradouro das linhas, individualmente mas sobretudo pela maneira como constituem um todo. É uma descoberta obsessiva do novo objecto até descobrir a “composição” (harmonia), até entranhar-se em mim algo de inovador, que tem tanto de interpretativo como de sensorial. Quando eu era mais novo, este “trajecto” acabava quase sempre num enjoo, numa náusea que me davam algumas tonturas. Mais tarde, o tal “trajecto” passou a culminar numa grande sensação de prazer e preenchimento interior. Hoje em dia, a sensação de preenchimento é tão forte que, por vezes, parece que não a vou conseguir aguentar, que estou prestes a rebentar por dentro.
Quando passo dias ou semanas sem esta “dose” (ou “transe” sensorial) a minha vida transforma-se num tédio, num cinzento que me conduz ao desinteresse pela maioria das coisas.
Após esta explicação sobre as minhas experiências estéticas, cumpre-me esclarecer a ligação entre a minha percepção particular do Belo e o segundo “passo” que me conduziu à descoberta de um Ser extra-humano. Recordo ao leitor que o primeiro passo consistiu em reconhecer o Novo Testamento como obra de uma inteligência superior à humana.
Como eu expliquei, na minha vida surgem ocasionalmente momentos de grande intensidade emocional, cujo ponto de partida é a percepção de determinados objectos (por “objecto” entenda-se: faces, paisagens, muros, movimentos, etc, etc. Portanto, neste texto aplico a palavra objecto a algo que pode ser visto).
Os tais momentos estéticos, a partir de determinada altura, algures na passagem para a idade adulta, passaram a ser acompanhados de uma elevação espiritual. Confesso que tenho alguma dificuldade em explicar o fenómeno. É uma sensação avassaladora de preenchimento interior (maior do que eu próprio, uma vez que não a consigo controlar), e que, com a idade adulta, passou a ser acompanhada da percepção da Vida como essência. A Vida de que falo é algo em si mesmo, um ser próprio, capaz de entrar ou sair do interior humano. Portanto, a minha forma de acolher o Belo surge imbuída da essência da Vida. O Belo e a Vida são experienciados por mim não como entidades separadas, mas sim vividas numa experiência única. E o conjunto de percepções não acaba aqui. O Amor, sentido como sentimento em estado puro (essência), faz parte também do complexo sensorial, que, condensado, é vivido sob a forma de fenómeno total.
Ora, quem é o Pai de que Jesus fala? É um Ser que obriga os homens a recitar ladainhas, a fazer sacrifícios sem sentido e a submeter-se a uma qualquer Ordem mundana, seja ela de cariz religioso ou político? Não. O Deus do Novo Testamento é a essência do Amor e da Vida. O Nazareno não podia ser mais claro quando afirmou entrar em todas as casas onde fosse bem-vindo. A questão estava unicamente no franquear das portas. E tal como ele o cumpriu fisicamente, também o Pai o faria espiritualmente. Quem tem a percepção desobstruída, arrisca-se a ser visitado por Deus.
Quanto à Igreja Católica, continuo com o mesmo desafecto às ladainhas, à arte sacra e aos sacrifícios que não têm por objectivo o crescimento interior. Não sou amigo das promessas aos Santos, que mais parecem intercâmbios comerciais. Nem das superstições ligadas a relíquias ou outros objectos sagrados que servem de muleta psicológica às inseguranças humanas. Mas quem sou eu para julgar o mais irracional dos devotos, aquele que segue com o coração fechado as superstições que a Igreja foi acumulando ao longo de séculos? Um pedaço de palha soprado pelo vento, perdoem-me o cliché… O caminho de evolução espiritual, de aperfeiçoamento e de aproximação à tal Inteligência Superior, de que vos falei, parece-me, logo à primeira vista, um projecto árduo, que só pode ser edificado dentro de cada indivíduo (ainda que possa haver entreajuda dos crentes), que absorve todas as forças e a auto-vigilância continua. Ora, se eu aceitar esse projecto, de certeza que não terei mais energia nem concentração para tecer um juízo sobre os actos dos outros. Se eu julgar ou reparar num qualquer erro praticado por um católico, é porque de certeza, não estou a aplicar-me o suficiente no meu projecto.
A minha Fé, hoje em dia, é vivida em cada momento de arrebatamento interior, é a vivência do Belo, da Vida e do Amor, sentidos num deslumbramento estético uno. De cada vez que sou arrebatado, arrebanhado pelo Belo mais insólito e que me domina temporariamente o Eu interior, sei que Deus existe, porque o sinto de uma forma muito mais intensa do que todas as outras sensações que povoam a minha vivência quotidiana. São momentos de revelação e de comunhão com um Ser infinitamente superior a mim.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Feedback ao filme AVATAR 3D - Continuação
No filme AVATAR, de James Cameron, encontramos mais um exemplo da fusão entre ciência e religião, entre tantos que povoam o nosso mundo. Esta aliança, que produz efeitos tão curiosos, é uma das características que alguns autores denominam “pós-modernidade”. A questão principal, no meu entender, está na forma como conceitos de sociedades “primitivas” são apropriados pela cultura ocidental. O que acontece, na maioria das vezes, é que os ocidentais traduzem linguisticamente o conceito, mas não culturalmente. Por exemplo, a palavra “chi”, de origem chinesa, é traduzida por “energia vital”. Obviamente, nós que vivemos numa cultura predominantemente científica e tecnológica, entendemos a “energia” à nossa maneira, de acordo com a nossa cosmovisão. De certeza que, um chinês, habitante de uma qualquer aldeia remota, entenderá o “chi” de uma forma completamente distinta dos ocidentais, que adoptaram a palavra à sua maneira e a integraram em práticas religiosas do tipo Nova Era. Para entendermos o chi, seria necessário um trabalho antropológico, um exercício de procurar ver o mundo pelos olhos do tal chinês que vive na aldeia remota.
Portanto, há muitas seitas Nova Era que nasceram, indo buscar palavras a outras sociedades, mas sem fazer a sua tradução cultural. Sim, porque para entender certos conceitos não-ocidentais seria necessário que uma pessoa mudasse de prisma, de sistemas de valores, enfim, de cultura.
Um dos aspectos inerentes à apropriação de crenças nas sociedades ocidentais está na substituição de uma dada substância imaterial (alma, espírito, etc) por modelos científicos, ou seja, materialistas. No ocidente acredita-se predominantemente no que tem uma substância material, que obedeça aos vectores do espaço e do tempo, que seja mensurável e, numa palavra, FÍSICO. Daí que, a tal “energia vital” da Nova Era seja frequentemente interpretada como electricidade, luz, etc. Não passaria pela cabeça de muitos orientais que a “aura” fosse passível de ser fotografada, prática cada vez mais comuns nos eventos de ocultismo e esoterismo.
No hinduísmo, um avatar é a manifestação terrena de um deus. Na maioria das vezes, a intenção desse deus é mostrar-se aos homens e estabelecer um qualquer tipo de comunicação. Implica, nalgumas correntes, a ideia de incorporação, do Espírito num homem. Indo buscar um exemplo ao cristianismo, Cristo seria o avatar de Deus. No filme de James Cameron, um avatar é o corpo de um nativo do planeta Pandora que, graças aos avanços tecnológicos, pode ser comandado pela mente de um americano. O conceito é simples: um ser humano (um soldado, uma cientista, por ex) enfiam-se numa máquina e, através desta controlam inteiramente o sistema nervoso do corpo à distância. Com este processo, um terráqueo pode viver em Pandora com uma aparência semelhante à dos habitantes locais. Este exemplo é perfeito para demonstrar a substituição do elemento “alma” pelo de “rede neuronal”. Enquanto, no hinduísmo, o deus Shiva usava a suas propriedade imateriais para incorporar um ser corpóreo, o “pós-modernismo” usa os poderes da ciência para produzir o mesmo efeito.
Para além da remoção do Espírito das novas seitas ocidentais, há ainda um distanciamento quanto ao ideal romântico de Natureza. Durante o século XVIII até meados do século XX, predominou na Europa uma visão romântica do mundo natural, expresso em conceitos como o de “floresta virgem” ou de “instinto”. Parecia que havia uma espiritualidade imanente em tudo o que não fosse produzido pelas mãos humanas. Havia também a noção de “homem da natureza”, que seriam os nativos de sociedades tribais, seres em perfeita harmonia com a floresta circundante.
James Cameron introduz no filme a mesma ideia. Os habitantes de Pandora fazem parte de um todo, equilibrado, que constitui o mundo natural. A novidade está na interpretação que o realizador nos oferece, vinda da cultura científica actual. Todos os seres vivos do planeta Pandora estão ligados em rede, comunicam uns com os outros através de processos bioquímicos, tal como uma rede de neurónios. Para além destas interligações (complexíssimas) existem árvores sagradas que acumulam conhecimento, eterna e permanentemente, sobre todos os “inputs” que o meio lhes envia. São as árvores sagradas que guardam toda a informação e zelam pelo equilíbrio (funcionamento em harmonia) de toda a natureza do planeta Pandora. Isto quer dizer que, o mundo criado por Cameron é uma metáfora do quotidiano actual das sociedades ocidentais: a presença e disseminação das redes de computadores. As árvores sagradas desempenham exactamente o mesmo papel que os servidores nas nossas redes informáticas. Pandora é um domínio, permitam-me a linguagem informática. Dá-se o nome de domínio a uma qualquer rede de computadores gerida por um servidor.
Concluindo, o argumento do filme AVATAR é uma metáfora da nossa sociedade global, interligada por redes infinitas, sob o manto do naturalismo romântico que povoou a imaginação ocidental nos últimos dois séculos. Como não podia deixar de ser, tem também uma história de amor, na qual um soldado ocidental se apaixona por uma nativa, e pelo todo que constitui um paraíso terreal.
Portanto, há muitas seitas Nova Era que nasceram, indo buscar palavras a outras sociedades, mas sem fazer a sua tradução cultural. Sim, porque para entender certos conceitos não-ocidentais seria necessário que uma pessoa mudasse de prisma, de sistemas de valores, enfim, de cultura.
Um dos aspectos inerentes à apropriação de crenças nas sociedades ocidentais está na substituição de uma dada substância imaterial (alma, espírito, etc) por modelos científicos, ou seja, materialistas. No ocidente acredita-se predominantemente no que tem uma substância material, que obedeça aos vectores do espaço e do tempo, que seja mensurável e, numa palavra, FÍSICO. Daí que, a tal “energia vital” da Nova Era seja frequentemente interpretada como electricidade, luz, etc. Não passaria pela cabeça de muitos orientais que a “aura” fosse passível de ser fotografada, prática cada vez mais comuns nos eventos de ocultismo e esoterismo.
No hinduísmo, um avatar é a manifestação terrena de um deus. Na maioria das vezes, a intenção desse deus é mostrar-se aos homens e estabelecer um qualquer tipo de comunicação. Implica, nalgumas correntes, a ideia de incorporação, do Espírito num homem. Indo buscar um exemplo ao cristianismo, Cristo seria o avatar de Deus. No filme de James Cameron, um avatar é o corpo de um nativo do planeta Pandora que, graças aos avanços tecnológicos, pode ser comandado pela mente de um americano. O conceito é simples: um ser humano (um soldado, uma cientista, por ex) enfiam-se numa máquina e, através desta controlam inteiramente o sistema nervoso do corpo à distância. Com este processo, um terráqueo pode viver em Pandora com uma aparência semelhante à dos habitantes locais. Este exemplo é perfeito para demonstrar a substituição do elemento “alma” pelo de “rede neuronal”. Enquanto, no hinduísmo, o deus Shiva usava a suas propriedade imateriais para incorporar um ser corpóreo, o “pós-modernismo” usa os poderes da ciência para produzir o mesmo efeito.
Para além da remoção do Espírito das novas seitas ocidentais, há ainda um distanciamento quanto ao ideal romântico de Natureza. Durante o século XVIII até meados do século XX, predominou na Europa uma visão romântica do mundo natural, expresso em conceitos como o de “floresta virgem” ou de “instinto”. Parecia que havia uma espiritualidade imanente em tudo o que não fosse produzido pelas mãos humanas. Havia também a noção de “homem da natureza”, que seriam os nativos de sociedades tribais, seres em perfeita harmonia com a floresta circundante.
James Cameron introduz no filme a mesma ideia. Os habitantes de Pandora fazem parte de um todo, equilibrado, que constitui o mundo natural. A novidade está na interpretação que o realizador nos oferece, vinda da cultura científica actual. Todos os seres vivos do planeta Pandora estão ligados em rede, comunicam uns com os outros através de processos bioquímicos, tal como uma rede de neurónios. Para além destas interligações (complexíssimas) existem árvores sagradas que acumulam conhecimento, eterna e permanentemente, sobre todos os “inputs” que o meio lhes envia. São as árvores sagradas que guardam toda a informação e zelam pelo equilíbrio (funcionamento em harmonia) de toda a natureza do planeta Pandora. Isto quer dizer que, o mundo criado por Cameron é uma metáfora do quotidiano actual das sociedades ocidentais: a presença e disseminação das redes de computadores. As árvores sagradas desempenham exactamente o mesmo papel que os servidores nas nossas redes informáticas. Pandora é um domínio, permitam-me a linguagem informática. Dá-se o nome de domínio a uma qualquer rede de computadores gerida por um servidor.
Concluindo, o argumento do filme AVATAR é uma metáfora da nossa sociedade global, interligada por redes infinitas, sob o manto do naturalismo romântico que povoou a imaginação ocidental nos últimos dois séculos. Como não podia deixar de ser, tem também uma história de amor, na qual um soldado ocidental se apaixona por uma nativa, e pelo todo que constitui um paraíso terreal.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Feedback ao filme AVATAR 3D
Os efeitos visuais são notáveis. As legendas é que, por vezes, cortam o efeito 3D.
A história, no fundo, é igual a tantas outras contadas há mais de 200 anos: um mundo onde os nativos vivem em perfeita harmonia com a Natureza, sob ameaça da civilização ocidental. É o "bom selvagem" de Rousseau e de tantos outros amantes do primitivo, fantasistas do Paraíso Terreal. Para estes românticos, as "outras" sociedades (não ocidentais) viveriam num estado de Graça, de pureza e inocência. Até o homem branco chegar. É o primitivismo romântico, que já foi contado mil e uma vezes, aceitável pelas massas, mas que tresanda a ingenuidade por quem possui umas noções mais sérias de relativismo e não acredita em utopias.
É a história de Pocahontas, contada pela ficção científica de James Cameron.
A história, no fundo, é igual a tantas outras contadas há mais de 200 anos: um mundo onde os nativos vivem em perfeita harmonia com a Natureza, sob ameaça da civilização ocidental. É o "bom selvagem" de Rousseau e de tantos outros amantes do primitivo, fantasistas do Paraíso Terreal. Para estes românticos, as "outras" sociedades (não ocidentais) viveriam num estado de Graça, de pureza e inocência. Até o homem branco chegar. É o primitivismo romântico, que já foi contado mil e uma vezes, aceitável pelas massas, mas que tresanda a ingenuidade por quem possui umas noções mais sérias de relativismo e não acredita em utopias.
É a história de Pocahontas, contada pela ficção científica de James Cameron.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
A TOMADA DE COIMBRA, por António Feliciano de Castilho
I
Caminhavam frades bentos
do mosteiro de Lorvão,
quando acharam Dom Fernando
no meio de Carrião:
era Dom Fernando o Rei,
e seu reino era Leão.
– D. Fernando, D. Fernando,
novas de consolação!
cavaleiros não nos oiçam;
manda sair quantos são.
Deus te nos manda dizer
que tens Coimbra na mão.
«Descuidados estão Moiros
do poderio cristão;
deles o havemos sabido
por sua conversação,
quando nos vêm de Coimbra
a montear em Lorvão.
«Fingimos uma romagem
por livrar de suspeição,
e viemos dar-te aviso,
grão Rei, senhor de Leão.
Manda logo fazer prestes
todo o ginete e peão.
Como três meses passaram,
era por Janeiro então,
el-Rei é sobre Coimbra,
e os de dentro em confusão;
mas vale o muro à cidade,
que é mui boa defensão.
Em que traz muitos vassalos
de caldeira e de pendão,
em que traz o Cid Rui Dias,
mais forte que quantos são,
não acaba de a tomar,
sete meses já lá vão.
..........................
Cristãos, ganhastes Coimbra,
mais que jóia oriental;
mais tu, Coimbra, ganhaste,
que tens fonte baptismal,
e a tua mesquita grande
verás logo em catedral.
Dar meia cidade aos monges
queria o Rei liberal,
mas os monges só quiseram
uma casa monacal,
contentes com Lorvão santo,
seu paraíso terreal.
Foi-se el-Rei a Compostela
com sua gente leal.
De atabales e trombetas
soa estrondo festival;
abrem-se as portas do templo
bem armado e triunfal.
Todos co'o joelho em terra
como cumpre em caso tal,
diziam de agradecidos
ao valedor imortal:
– «Santiago, Santiago,
salvaste o nosso arraial;
salva sempre os Leoneses,
e a gente de Portugal.»
Escavações Poéticas; 1844
Não deixe de visitar o Projecto Vercial
Caminhavam frades bentos
do mosteiro de Lorvão,
quando acharam Dom Fernando
no meio de Carrião:
era Dom Fernando o Rei,
e seu reino era Leão.
– D. Fernando, D. Fernando,
novas de consolação!
cavaleiros não nos oiçam;
manda sair quantos são.
Deus te nos manda dizer
que tens Coimbra na mão.
«Descuidados estão Moiros
do poderio cristão;
deles o havemos sabido
por sua conversação,
quando nos vêm de Coimbra
a montear em Lorvão.
«Fingimos uma romagem
por livrar de suspeição,
e viemos dar-te aviso,
grão Rei, senhor de Leão.
Manda logo fazer prestes
todo o ginete e peão.
Como três meses passaram,
era por Janeiro então,
el-Rei é sobre Coimbra,
e os de dentro em confusão;
mas vale o muro à cidade,
que é mui boa defensão.
Em que traz muitos vassalos
de caldeira e de pendão,
em que traz o Cid Rui Dias,
mais forte que quantos são,
não acaba de a tomar,
sete meses já lá vão.
..........................
Cristãos, ganhastes Coimbra,
mais que jóia oriental;
mais tu, Coimbra, ganhaste,
que tens fonte baptismal,
e a tua mesquita grande
verás logo em catedral.
Dar meia cidade aos monges
queria o Rei liberal,
mas os monges só quiseram
uma casa monacal,
contentes com Lorvão santo,
seu paraíso terreal.
Foi-se el-Rei a Compostela
com sua gente leal.
De atabales e trombetas
soa estrondo festival;
abrem-se as portas do templo
bem armado e triunfal.
Todos co'o joelho em terra
como cumpre em caso tal,
diziam de agradecidos
ao valedor imortal:
– «Santiago, Santiago,
salvaste o nosso arraial;
salva sempre os Leoneses,
e a gente de Portugal.»
Escavações Poéticas; 1844
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Frédéric Chopin

A música de Chopin para piano combinava um senso rítmico único, e o uso frequente do cromatismo e do contraponto a partir do qual associava à beleza melódica uma não menos bela e vigorosa linha do baixo. Essa mistura produz uma sonoridade particularmente delicada na melodia e na harmonia, que são, todavia, sustentadas por sólidas e interessantes técnicas harmónicas. Ele levou o novo género de salão do nocturno, inventado pelo compositor irlandês John Field, a um nível mais aprofundado de sofisticação. Três de seus vinte e um nocturnos foram publicados apenas após a sua morte, em 1849, contrariando os seus desejos (wiki)
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domingo, 13 de dezembro de 2009
Citações do Nazareno
O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos
Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo
Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim
Se vós fósseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia
«Se o mundo vos odeia, reparai que, antes que a vós, me odiou a mim. Se viésseis do mundo, o mundo amaria o que é seu; mas, como não vindes do mundo, pois fui Eu que vos escolhi do meio do mundo, por isso é que o mundo vos odeia.
"Se vossos guias vos disserem: ‘o reino está no céu', então as aves vos precederam; se vos disserem que está no mar, então os peixes vos precederam. Mas o reino está dentro de vós, e também fora de vós. Se vos conhecerdes, sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis em pobreza, e vós mesmos sereis essa pobreza."
"Os homens precisam de um modelo para suas vidas, gostam de ser guiados; não gostam de dirigir. O homem que fica na encruzilhada dos caminhos e aponta as sendas, sem ele próprio percorrê-las, é um apontador. Um marco de madeira pode fazer o mesmo. O Mestre percorre o caminho. A cada passo deixa sua pegada claramente estampada para que todos possam vê-la e ter certeza de que ele, o Mestre, passou por ali."
Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o filho do seu pai, a filha da sua mãe e a nora da sua sogra; de tal modo que os inimigos do homem serão os seus familiares.
Então, irão entregar-vos à tortura e à morte e, por causa do meu nome, todos os povos irão odiar-vos. Nessa altura, muitos sucumbirão e hão-de trair-se e odiar-se uns aos outros. Surgirão muitos falsos profetas, que hão-de enganar a muitos. E, porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos; mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo. Este Evangelho do Reino será proclamado em todo o mundo, para se dar testemunho diante de todos os povos. E então virá o fim.»
Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na Terra será ligado no Céu, e tudo o que desligardes na Terra será desligado no Céu.
Há eunucos que nasceram assim do seio materno, há os que se tornaram eunucos pela interferência dos homens e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos, por amor do Reino do Céu. Quem puder compreender, compreenda.
Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo
Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim
Se vós fósseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia
«Se o mundo vos odeia, reparai que, antes que a vós, me odiou a mim. Se viésseis do mundo, o mundo amaria o que é seu; mas, como não vindes do mundo, pois fui Eu que vos escolhi do meio do mundo, por isso é que o mundo vos odeia.
"Se vossos guias vos disserem: ‘o reino está no céu', então as aves vos precederam; se vos disserem que está no mar, então os peixes vos precederam. Mas o reino está dentro de vós, e também fora de vós. Se vos conhecerdes, sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis em pobreza, e vós mesmos sereis essa pobreza."
"Os homens precisam de um modelo para suas vidas, gostam de ser guiados; não gostam de dirigir. O homem que fica na encruzilhada dos caminhos e aponta as sendas, sem ele próprio percorrê-las, é um apontador. Um marco de madeira pode fazer o mesmo. O Mestre percorre o caminho. A cada passo deixa sua pegada claramente estampada para que todos possam vê-la e ter certeza de que ele, o Mestre, passou por ali."
Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o filho do seu pai, a filha da sua mãe e a nora da sua sogra; de tal modo que os inimigos do homem serão os seus familiares.
Então, irão entregar-vos à tortura e à morte e, por causa do meu nome, todos os povos irão odiar-vos. Nessa altura, muitos sucumbirão e hão-de trair-se e odiar-se uns aos outros. Surgirão muitos falsos profetas, que hão-de enganar a muitos. E, porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos; mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo. Este Evangelho do Reino será proclamado em todo o mundo, para se dar testemunho diante de todos os povos. E então virá o fim.»
Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na Terra será ligado no Céu, e tudo o que desligardes na Terra será desligado no Céu.
Há eunucos que nasceram assim do seio materno, há os que se tornaram eunucos pela interferência dos homens e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos, por amor do Reino do Céu. Quem puder compreender, compreenda.
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sábado, 12 de dezembro de 2009
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
DESLUMBRAMENTOS
DESLUMBRAMENTOS
(Cesário Verde)
Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.
Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...
Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!
Ah! Como me estonteia e me fascina...
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!...
Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!
O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo de um regalo!
Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.
E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.
Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.
E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos – as rainhas.
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(Cesário Verde)
Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.
Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...
Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!
Ah! Como me estonteia e me fascina...
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!...
Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!
O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo de um regalo!
Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.
E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.
Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.
E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos – as rainhas.
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
domingo, 6 de dezembro de 2009
Missão
Lembrei-me de escrever umas breves palavras sobre o sentido da missão por causa de um debate que já dura há muito tempo: se os padres devem ou não poder casar.
Numa Era praticamente dominada pelos interesses individuais, custa a aceitar que existam seres humanos que não satisfaçam necessidades do corpo ou do Ego. Vivemos num mundo onde predominam as ambições materiais e a rendição do Homem ao mecanismo do desejo, ao conformismo da mediocridade e à obtenção de prazer imediato.
Ora, o sentido da Missão pertence a uma visão do mundo completamente oposta. O homem que se entrega a uma missão, em primeiro lugar, despede-se do Mundo. Desfaz todos os elos que o possam condicionar ou limitar a sua margem de acção. Assim, o missionário é um Ser sem compromissos, exceptuando a Causa a que se entrega. Num dia pode estar no Canadá, num ambiente cómodo e pacífico, como no outro a atravessar uma selva pantanosa cheia de perigos. É missionário 365 dias por ano e 24 horas por dia. A Causa exige que ele se entregue POR COMPLETO. Quem se entrega a uma Causa com sentido de Missão não pode ter outros elos, uma vez que comprometeria tudo. Imaginemos, por exemplo, um homem casado e com filhos e que decide seguir uma Missão cujo cumprimento implica longas viagens e risco de vida. Seria, de certeza, um mau pai e mau marido, e não estaria totalmente disponível para Servir a Causa. Portanto, não é por acaso que o celibato existe em várias religiões espalhadas pelo Mundo e que se impunha no Passado como condição indispensável para a admissão em Ordens religiosas e militares.
Entre as diferenças que há entre uma profissão e uma Missão, é que esta última é IMPERATIVA. Do seu cumprimento deriva todo o sentido da Vida do homem que a escolheu.
Se, por um lado, o Sentido de Missão exige o desapego, o desprendimento em relação à vida mundana, por outro, ordena que o homem se despeça de si mesmo. Ele tem que morrer, enquanto consciência de Si e deixar de dar importância à imagem que vê no espelho. Tudo para que possa renascer como um novo homem, com a atenção totalmente focada na Causa que serve. A questão é que o Eu interior é fonte de emoções e sentimentos que conduzem à insegurança, à dúvida, ao medo e, finalmente, ao ódio. Todas estas emoções fá-lo-iam vacilar nos momentos mais difíceis e, possivelmente, desviar-se do caminho que escolheu. O medo e a vaidade serão, porventura, os principais venenos que inebriam o homem. Toldam-lhe os sentidos, impedem uma visão cristalina e incutem-lhe a vontade de se refugiar dentro de si mesmo.
Ora, um homem que já morreu para o mundo e para si mesmo, é totalmente livre. Nada tem a perder e tudo a ganhar. Vai à procura do Sentido para a sua Vida na Causa que serve. Ele é a Causa – e mais nada!
Numa Era praticamente dominada pelos interesses individuais, custa a aceitar que existam seres humanos que não satisfaçam necessidades do corpo ou do Ego. Vivemos num mundo onde predominam as ambições materiais e a rendição do Homem ao mecanismo do desejo, ao conformismo da mediocridade e à obtenção de prazer imediato.
Ora, o sentido da Missão pertence a uma visão do mundo completamente oposta. O homem que se entrega a uma missão, em primeiro lugar, despede-se do Mundo. Desfaz todos os elos que o possam condicionar ou limitar a sua margem de acção. Assim, o missionário é um Ser sem compromissos, exceptuando a Causa a que se entrega. Num dia pode estar no Canadá, num ambiente cómodo e pacífico, como no outro a atravessar uma selva pantanosa cheia de perigos. É missionário 365 dias por ano e 24 horas por dia. A Causa exige que ele se entregue POR COMPLETO. Quem se entrega a uma Causa com sentido de Missão não pode ter outros elos, uma vez que comprometeria tudo. Imaginemos, por exemplo, um homem casado e com filhos e que decide seguir uma Missão cujo cumprimento implica longas viagens e risco de vida. Seria, de certeza, um mau pai e mau marido, e não estaria totalmente disponível para Servir a Causa. Portanto, não é por acaso que o celibato existe em várias religiões espalhadas pelo Mundo e que se impunha no Passado como condição indispensável para a admissão em Ordens religiosas e militares.
Entre as diferenças que há entre uma profissão e uma Missão, é que esta última é IMPERATIVA. Do seu cumprimento deriva todo o sentido da Vida do homem que a escolheu.
Se, por um lado, o Sentido de Missão exige o desapego, o desprendimento em relação à vida mundana, por outro, ordena que o homem se despeça de si mesmo. Ele tem que morrer, enquanto consciência de Si e deixar de dar importância à imagem que vê no espelho. Tudo para que possa renascer como um novo homem, com a atenção totalmente focada na Causa que serve. A questão é que o Eu interior é fonte de emoções e sentimentos que conduzem à insegurança, à dúvida, ao medo e, finalmente, ao ódio. Todas estas emoções fá-lo-iam vacilar nos momentos mais difíceis e, possivelmente, desviar-se do caminho que escolheu. O medo e a vaidade serão, porventura, os principais venenos que inebriam o homem. Toldam-lhe os sentidos, impedem uma visão cristalina e incutem-lhe a vontade de se refugiar dentro de si mesmo.
Ora, um homem que já morreu para o mundo e para si mesmo, é totalmente livre. Nada tem a perder e tudo a ganhar. Vai à procura do Sentido para a sua Vida na Causa que serve. Ele é a Causa – e mais nada!
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Sobre o Lírio Branco
Os lírios são aquelas flores angiospérmicas que toda a gente conhece, por estarem presentes em muitos jardins, e darem um toque de graça pelas suas pétalas grandes e graciosas. Mas para além do lírio ornamental, cujo bolbo de algumas espécies é comestível, existe o lírio branco: a mais nobre de todas as flores.
A primeira referência que eu encontro é na expressão O Lírio entre os espinhos (lilium inter spinas) dos cantares de Salomão, o símbolo do Amor Supremo entre marido e mulher. Ainda na Bíblia, mas desta vez no Novo Testamento, Jesus refere-se à Sua Mãe da mesma forma: Tu És o “Lírio entre os espinhos”. É a maior louvor à feminilidade no seu estado intocável, fiel e puro. Aponta também para uma forma de Amor muito para além dos sentimentos terrenos. No seu estado superlativo, só pode ser exterior ao homem. É divino e manifesta-se entre dois seres inseparáveis, cuja ligação é eterna e, por isso, nem a morte física pode destruir.
Passou a ser o símbolo de Nossa Senhora, a bendita entre as mulheres, aquela que amou como ninguém o Deus feito homem, e foi amada pelo Salvador que se sacrificou por todos nós. É a pureza e a castidade, a contenção das paixões terrenas e a concomitante abertura à Graça do Senhor.
Na Idade Média foi estilizada na flor-de-lis, um ícone com apenas três pétalas. O número não é arbitrário. Refere-se à Santíssima Trindade. Em França, o mesmo número apontava para três dons: a Fé, a Sabedoria e a Cortesia. Devido às diferentes pronúncias francófonas, a flor-de-lis foi também chamada flor-de-luz. Passou a ser um marco da nobreza francesa e acabou por se espalhar um pouco por toda a parte, Hoje em dia é a principal insígnia dos escuteiros.
A minha devoção não vai para a flor-de-lis, mas para a própria planta e, sobretudo, para o seu valor ancestral. Por ser a florescência do Amor Supremo, é a rainha entre as flores. Não deveria ser mexida e remexida por horticultores e floristas, que a manuseiam com a mesma banalidade como quem arrecada um molho de bróculos. É sagrada e, como tal, só deveria ser manuseada por uma Ordem de indivíduos que escolheram entregar a sua vida a uma missão. Como não tenho poder para as retirar das mãos grotescas da plebe, meus amigos, só vos peço que a respeitem e lhe dêem o valor que ela merece.
A primeira referência que eu encontro é na expressão O Lírio entre os espinhos (lilium inter spinas) dos cantares de Salomão, o símbolo do Amor Supremo entre marido e mulher. Ainda na Bíblia, mas desta vez no Novo Testamento, Jesus refere-se à Sua Mãe da mesma forma: Tu És o “Lírio entre os espinhos”. É a maior louvor à feminilidade no seu estado intocável, fiel e puro. Aponta também para uma forma de Amor muito para além dos sentimentos terrenos. No seu estado superlativo, só pode ser exterior ao homem. É divino e manifesta-se entre dois seres inseparáveis, cuja ligação é eterna e, por isso, nem a morte física pode destruir.
Passou a ser o símbolo de Nossa Senhora, a bendita entre as mulheres, aquela que amou como ninguém o Deus feito homem, e foi amada pelo Salvador que se sacrificou por todos nós. É a pureza e a castidade, a contenção das paixões terrenas e a concomitante abertura à Graça do Senhor.
Na Idade Média foi estilizada na flor-de-lis, um ícone com apenas três pétalas. O número não é arbitrário. Refere-se à Santíssima Trindade. Em França, o mesmo número apontava para três dons: a Fé, a Sabedoria e a Cortesia. Devido às diferentes pronúncias francófonas, a flor-de-lis foi também chamada flor-de-luz. Passou a ser um marco da nobreza francesa e acabou por se espalhar um pouco por toda a parte, Hoje em dia é a principal insígnia dos escuteiros.
A minha devoção não vai para a flor-de-lis, mas para a própria planta e, sobretudo, para o seu valor ancestral. Por ser a florescência do Amor Supremo, é a rainha entre as flores. Não deveria ser mexida e remexida por horticultores e floristas, que a manuseiam com a mesma banalidade como quem arrecada um molho de bróculos. É sagrada e, como tal, só deveria ser manuseada por uma Ordem de indivíduos que escolheram entregar a sua vida a uma missão. Como não tenho poder para as retirar das mãos grotescas da plebe, meus amigos, só vos peço que a respeitem e lhe dêem o valor que ela merece.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
1 de Dezembro de 1640 - Restauração da Independência
Em 1580, faleceu o Cardeal- rei D.Henrique sem sucessor. Filipe II de Espanha, neto do nosso rei D.Manuel I, tornou-se rei de Portugal e, a partir daí, ficámos submetidos ao domínio filipino e presos a Espanha durante 60 anos.
No primeiro dia de Dezembro de 1640, um grupo de quarenta fidalgos portugueses que tinha planeado acabar com o domínio e com a opressão filipina e restaurar a nossa independência, dirigiu-se para o Terreiro do Paço. Os conjurados entraram no Palácio da Ribeira e atacaram de surpresa. Em pouco tempo, derrotaram a guarda da Vice-Rainha, Margarida de Sabóia, Duquesa Mântua, prima direita de Filipe IV de Espanha e sua representante. Atiraram pela janela e mataram o Secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos.
A Duquesa de Mântua, tentou acalmar o povo amotinado no Terreiro do Paço e fazer com que este mantivesse obediência a Filipe IV de Espanha, mas não teve sucesso. Sem apoios, ficou presa nos seus aposentos e só teve ordem para ir para Espanha uns dias depois da proclamação do legítimo rei português.
Entretanto, ainda no carismático 1º de Dezembro, depois do sucedido já relatado, as janelas do Paço da Ribeira foram abertas e apareceu D.Miguel de Almeida, erguendo a sua espada e vertendo lágrimas que caem sobre a sua barba branca e gritou:
"— Liberdade!Liberdade! Viva D.João IV! O 8º Duque de Bragança é o nosso legítimo rei!".
A 15 de Dezembro de 1640, o Duque de Bragança foi aclamado rei como D. João IV em Lisboa. No entanto, seguiram-se mais 28 anos de batalhas entre portugueses e espanhóis até que, finalmente, em 1668, a Espanha reconheceu a independência de Portugal.
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